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As atrações da pista são o ponto alto
da noite, com shows de gogo dancers e strippers - moças
se aglomeram ao redor do palco e gritam, assoviam. No lounge,
casais namoram, conversam e dão risada, como se estivessem
em bancos de parque, mas sob a proteção das
quatro paredes da casa. As lésbicas querem um espaço
só delas.
"Quando se fala em movimento
gay, as pessoas nem pensam em mulheres. Então é
um jeito de dizer que existimos"
Karina Dias, escritora
Em muitas coisas, as mulheres homossexuais querem ser iguais
aos homens gays: nos direitos civis e na aceitação
social conquistados, por exemplo. Em outras, querem que
suas diferenças sejam respeitadas e valorizadas.
O que se constata quando se mergulha no mundo das lésbicas
é que elas não querem abrir mão de
um espaço próprio. Ou seja, não querem
ficar a reboque dos homossexuais masculinos. Para dar conta
dessa necessidade, está surgindo um movimento silencioso,
com eventos, produtos e serviços voltados para esse
público. As baladas que se multiplicam são
um exemplo. Mas o fermento dessa iniciativa é a internet.
A escritora Karina Dias, 30 anos, começou com um
blog e acaba de lançar o romance lésbico "Aquele
Dia Junto ao Mar". "Quando se fala em movimento
gay, as pessoas nem pensam em mulheres. Então é
um jeito de dizer que existimos", afirma Karina, que
recebe dezenas de emails por dia de garotas que não
sabem como lidar com a descoberta da sexualidade. "Eles
vêm carregados de dúvidas e medos. Isso é
um grande impulso para continuar escrevendo."
A internet mostrou que havia um público negligenciado
até mesmo pela mídia gay. "Dentro de
um mundo machista, as lésbicas são a minoria
da minoria", diz Paco Llistó, editor do Dykerama
(dyke é gíria para lésbica, em inglês),
site voltado para lésbicas e bissexuais que existe
há dois anos e chega a picos de um milhão
de acessos por dia. "O machismo pauta até mesmo
parte do movimento LGBT (Lésbicas, gays, bissexuais
e transexuais). Não só na militância,
mas de forma editorial e cultural", afirma Llistó.
"Agora elas começam a ganhar espaço."
Mais recente, o site Parada Lésbica tem também
uma rede social só para elas. A editora do site,
Del Torres, 29 anos, apostou na diversificação
de assuntos, sob a perspectiva homossexual feminina. "Lésbicas,
acima de tudo, são mulheres e gostam de textos mais
sensíveis", afirma Del. Outra ideia foi criar
um ponto de encontro virtual para as meninas. Daí
surgiu o Leskut, que tem hoje 19 mil perfis e recebecerca
de 100 adesões por dia. "Chats de grandes portais
estão cheios de heterossexuais e casais procurando
alguém para transar. Como o Leskut é um ambiente
mais controlado, elas se sentem confiantes."
A socióloga francesa Stéphanie Arc, autora
de "As Lésbicas" (Ed. GLS), que acaba de
ser lançado no Brasil, acredita que as homossexuais
femininas estão certas em tentar afirmar sua identidade
dentro do movimento gay. "Afinal, elas encontram dificuldades
específicas na sociedade", reconhece. Mas essa
participação é um fenômeno bastante
recente. "Existia uma ideia forte de que as mulheres
não militavam. E, da forma tradicional, não
participavam mesmo", afirma a escritora Valéria
Melki, 43 anos. Valéria enfatiza que é importante
que a militância assimile as diferenças. "Sexualidade
para os homens é um valor, para as mulheres é
um horror. Uma mulher sexualmente livre é malvista,
ao contrário do homem. Isso afeta a mulher lésbica."
A escritora foi uma das criadoras do grupo Umas e Outras,
que reunia lésbicas para saraus literários.
Outra das criadoras, Laura Bacellar, comemorou um ano da
primeira editora lésbica do Brasil, a Malagueta.
| Laura fundou a editora junto com sua companheira,
Hanna K. "Nos nossos romances, queremos protagonistas
e visão homossexuais claras e assumidas",
afirma Laura. Há duas gerações
escrevendo atualmente: autoras mais velhas, entre 40
e 50 anos, que participaram da primeira fase do movimento
gay, e uma nova geração, na casa dos 30
anos, que se formou na internet. "É um pouco
mais fácil para elas do que foi para a geração
anterior, as famílias aceitam com mais tranquilidade",
diz Laura. "Elas são mais diretas em seus
textos para falar o que acontece na cama, em detalhes,
sem tanto pudor."
Outras editoras estão despertando para o nicho.
O Grupo Editorial Summus tem o selo GLS, que só
neste ano lançou seis títulos e cresceu
10% mais do que o resto do grupo. "As publicações
voltadas para as lésbicas estão mais
interessantes", reconhece Soraia Bini Cury, editora-executiva
da Summus. "Mas não existia abertura para
esses livros. De uns tempos para cá, elas estão
assumindo junto com os gays a militância pelos
direitos humanos", diz a editora.
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LIVROS PARA ELAS
Laura Bacellar e Hanna K são casadas e sócias
da editora Malagueta, de literatura lésbica
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Os críticos desse movimento alertam para o perigo
de as lésbicas quererem se fechar em guetos, justamente
no momento em que os gays estão conseguindo mais
espaço na sociedade. A semióloga Edith Modesto,
que acaba de lançar "Entre Mulheres", de
depoimentos homoafetivos, discorda. "Isso é
preconceito", afirma. "Não se trata de
se isolar. Pessoas com as mesmas características
se sentem bem de ter um espaço próprio para
discutir seus assuntos." Para Stéphanie Arc,
a ideia de gueto também não se aplica. "Não
é um conceito exato, porque o gueto é onde
você está à força, contra a sua
vontade. E isso jamais me ocorreu quando estou num bar para
mulheres."
A NOITE É DELAS Sem assédio
masculino, elas ficam à vontade em bares e baladas
lésbicas
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