Outro dia, aqui mesmo, dizia eu que São
Paulo ou, mais precisamente, sua capital - não tem
horizonte. É o óbvio que ninguém vê,
porque somos cegos para o óbvio. Mas reparem: - em
São Paulo o horizonte é uma parede e, depois,
outra, mais outra, outra mais, enfim, dezenas de paredes,
como no soneto de Raimundo Correia. Eu não tinha
percebido isso. Um dia, o meu amigo Luís Eduardo
Borghert veio ao Rio.
Diga-se, entre parênteses, que o Borghert vive
em São Paulo, trabalha em São Paulo, fatura
em São Paulo. E são tais suas responsabilidades
que não pode afastar-se uma polegada do seu emprego.
Já adquiriu, inclusive, o sotaque paulista. Até
que, um dia, vou passando pelo Leblon quando o vejo. Mando
o táxi voltar. Eis o que, no primeiro lance, imaginei:
- "Se o Borghert está aqui é porque
o despediram". A tarde caía, invisível,
sobre tudo, inclusive o Borghert.
Salto do táxi, berrando: - "Como é,
Borghert?". Virou-se e nos abraçamos, patéticos
e ululantes, como dois italianos de anedota. E, então,
perguntei-lhe: - "Está fazendo o quê?".
Olhando fundo da tarde, disse apenas: - "Estou olhando
o horizonte". Saíra de São Paulo, largara
responsabilidades, horários, fregueses, e tudo
para ver um horizonte. A princípio, não
entendi, como, decerto, o leitor também não
está entendendo. Mas ele explicou tudo.
Depois que se transferiu para São Paulo, ele começou
a sentir uma falta desesperadora. E não sabia de
quê ou de quem. Era falta de algo transcendente,
vital, insubstituível. Até que descobriu
o seguinte: - na capital paulista, o sujeito está
sempre a cinco metros do horizonte. Exatamente, uma profundidade
de cinco metros. Por outras palavras: - o horizonte é
uma parede. Para onde se vire, há sempre uma parede.
O Borghert, dentro ou fora de casa, na rua, ou qualquer
lugar, está entre quatro paredes fatais.
Um dia, não agüentou mais. Estava com um
cliente importantíssimo no seu escritório.
Disse: - "Dá licença um instantinho.
Volto já". Desceu, apanhou o automóvel
e arrancou para o Rio. Veio numa velocidade fulminante.
Dirão que há horizontes na estrada. Mas
era pouco para seu apetite visual. Ele sempre achou que
o horizonte marinho tem outra profundidade, sim, uma profundidade
espantosa. Pode-se perguntar: - "E por que não
foi a Santos?". Porque profundo é o horizonte
do Leblon.
Estava, ali, na calçada, havia duas horas, tremendo
de beleza. Vira-se para mim iluminado: - "Agora posso
voltar para São Paulo". Bem. Contei o caso
do meu amigo.
O que eu queria dizer, em seguida, é que o brasileiro,
em geral, é um povo sem horizonte. Tenho que explicar
melhor. Não falo do horizonte físico, mas
do interior. Sim, falta profundidade ao nosso horizonte
interior.Por exemplo: - o carioca. É o homem de
sua rua, do seu bairro, de sua cidade. Se me perguntassem
até onde vai meu horizonte interior, eu diria:
- até Bangu. Pensar que existe algo, além
de Bangu, já me dá vertigem. Isso, eu. Os
outros vão mais longe, porém não
muito mais longe. O horizonte interior do brasileiro não
chega ao Amazonas.Em várias "confissões",
escrevi que a solidão do Amazonas é um crime
de todos nós. Outro dia, o Paulo Bentes clamava,
estrábico de horror: - "O Amazonas tem menos
gente do que Madureira". Não sei se foi o
Paulo Bentes que disse isso ou o Miguel Lins. Não,
não. Foi mesmo o Paulo Bentes. Imaginem: - o Amazonas
é um continente e perde em população
para Madureira. E, no entanto, há pior e, repito,
há pior.
Vamos aos fatos.
Ontem, fui apresentado a um rapaz magro, tímido,
o rosto cravejado de espinhas. Que ele fosse magro, ou
tímido, não teria importância. Mas
pergunto: - "Por que as espinhas?". Sou homem
de gerações passadas. E posso afirmar que,
antigamente, todo mundo tinha espinhas. Hoje quem as tem?
Só o Oduvaldo Viana Filho. A pele do brasileiro
atual é admirável. E eu me espantei das
espinhas que floriam do rosto do tal rapaz. Súbito,
alguém sussurra: - "É do Piauí".
O fato de ser do Piauí soou como uma explicação
geográfica da timidez, das espinhas e das canelas
(canelas de Olívia Palito). Olhei o apresentado
com uma curiosidade nova e aguda. Enfim, eu encontrava,
na vida real, um piauiense. Por um momento, deu-me uma
vontade pueril e terrível de perguntar-lhe: - "Quer
dizer que o Piauí existe mesmo?". Conversamos
alguns minutos (eu estava magnetizado pelas espinhas).
Até o fim, o rapaz teve um olhar súplice,
infeliz, de quem pede desculpas de não sei que
faltas imaginárias. Por fim, despediu-se. Sua humildade
era irrespirável.
Mal o piauiense virou as costas, imaginei: - se o Amazonas
tem menos gente do que Madureira, que dizer do Piauí?
O Piauí deve ter menos habitantes do que a praça
Saenz Peña. Diz a minha vizinha, gorda e patusca
- "A gente vive aprendendo". Aprendi, numa simples
apresentação, que o Piauí é
infinitamente mais abandonado do que o Amazonas. Este,
na pior das hipóteses, é para nós
um sentimento de culpa. Sei que o Amazonas continua, no
seu lugar, como um monstruoso túmulo florestal
ou fluvial, sei lá. Mas temos vergonha, remorso,
de tal abandono. O próprio estado ainda esbraveja,
ainda esperneia, ainda reivindica, ainda pede verbas.
Também se fala do Ceará, do Rio Grande do
Norte, Sergipe, Maranhão e Pará. A minha
terra, Pernambuco, está viva. Tem Gilberto Freyre.
Mas, e o Piauí? Nem uma palavra sobre o Piauí.
Silêncio ensurdecedor. Eu próprio passo dez
anos, quinze anos, sem pensar no Piauí, e sem ouvir-lhe
o nome. Alguém poderia dizer como se falasse da
Lua: - "Piauí não tem vida". Graças
às radiofotos fazemos uma idéia de pai sagem
lunar. Parece que lá em cima não há
uma única e escassa lagartixa. Mas que noção
temos nós da paisagem do Piauí? Quero crer
que estejamos rigorosamente convencidos de sua inexistência.
O silêncio que se faz sobre o Piauí é
inédito. A única referência que temos,
do seu povo e de sua terra, é o "meu boi morreu".
E o próprio estado, com um fatalismo bovino, não
pede verbas, não pede nada, não exala um
protesto.
E o que mata é, justamente, a humildade. Dirão
vocês que o Piauí tem a modéstia do
pequeno, sim, a modéstia do pobre. Já contei,
aqui, o que ocorreu no Vaticano. Uma senhora brasileira
foi recebida pelo papa. Poucas palavras. Ao se despedir,
Sua Santidade pediu, num sussurro: - "Reze por mim".
Podia ter essa humildade porque era o papa.
Agora mesmo, há o caso patético do Cinema
Novo. O Rio é, como se sabe, a sede do Festival
Internacional do Cinema. Concentram-se aqui diretores,
autores, astros de toda parte. Trata-se de uma festa mundial.
Que faz o Cinema Novo? Resolveu tratar o festival "com
o mais ultrajante desprezo, o mais feroz sarcasmo".
E, portanto, age e reage como se ele, Cinema Novo, é
que fosse a potência esmagadora, e seus artistas
os gênios, as celebridades, a promoção
mundial. Os idiotas da objetividade, que sempre os há,
e sarcásticos, poderão ver, em tal arrogância,
um sintoma de paranóia. Não sou psiquiatra.
E acho que devemos deixar a modéstia, a humildade,
para os Estados Unidos, a França, Itália,
Japão. Nós precisamos de mania de grandeza,
e repito: - a mania de grandeza é o nosso único
luxo de subdesenvolvido. E, seguindo o estilo do Cinema
Novo, o Piauí deve fazer pose de potência
mundial.
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