NELSON RODRIGUES

"Sou um menino que vê o amor pelo buraco
da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci
menino, hei de morrer menino. E o buraco
da fechadura é, realmente, a minha ótica
de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo
pornográfico."

 


NUNCA HOUVE TAMANHA SOLIDÃO NA TERRA

Outro dia, aqui mesmo, dizia eu que São Paulo ou, mais precisamente, sua capital - não tem horizonte. É o óbvio que ninguém vê, porque somos cegos para o óbvio. Mas reparem: - em São Paulo o horizonte é uma parede e, depois, outra, mais outra, outra mais, enfim, dezenas de paredes, como no soneto de Raimundo Correia. Eu não tinha percebido isso. Um dia, o meu amigo Luís Eduardo Borghert veio ao Rio.

Diga-se, entre parênteses, que o Borghert vive em São Paulo, trabalha em São Paulo, fatura em São Paulo. E são tais suas responsabilidades que não pode afastar-se uma polegada do seu emprego. Já adquiriu, inclusive, o sotaque paulista. Até que, um dia, vou passando pelo Leblon quando o vejo. Mando o táxi voltar. Eis o que, no primeiro lance, imaginei: - "Se o Borghert está aqui é porque o despediram". A tarde caía, invisível, sobre tudo, inclusive o Borghert.

Salto do táxi, berrando: - "Como é, Borghert?". Virou-se e nos abraçamos, patéticos e ululantes, como dois italianos de anedota. E, então, perguntei-lhe: - "Está fazendo o quê?". Olhando fundo da tarde, disse apenas: - "Estou olhando o horizonte". Saíra de São Paulo, largara responsabilidades, horários, fregueses, e tudo para ver um horizonte. A princípio, não entendi, como, decerto, o leitor também não está entendendo. Mas ele explicou tudo.

Depois que se transferiu para São Paulo, ele começou a sentir uma falta desesperadora. E não sabia de quê ou de quem. Era falta de algo transcendente, vital, insubstituível. Até que descobriu o seguinte: - na capital paulista, o sujeito está sempre a cinco metros do horizonte. Exatamente, uma profundidade de cinco metros. Por outras palavras: - o horizonte é uma parede. Para onde se vire, há sempre uma parede. O Borghert, dentro ou fora de casa, na rua, ou qualquer lugar, está entre quatro paredes fatais.

Um dia, não agüentou mais. Estava com um cliente importantíssimo no seu escritório. Disse: - "Dá licença um instantinho. Volto já". Desceu, apanhou o automóvel e arrancou para o Rio. Veio numa velocidade fulminante. Dirão que há horizontes na estrada. Mas era pouco para seu apetite visual. Ele sempre achou que o horizonte marinho tem outra profundidade, sim, uma profundidade espantosa. Pode-se perguntar: - "E por que não foi a Santos?". Porque profundo é o horizonte do Leblon.

Estava, ali, na calçada, havia duas horas, tremendo de beleza. Vira-se para mim iluminado: - "Agora posso voltar para São Paulo". Bem. Contei o caso do meu amigo.


O que eu queria dizer, em seguida, é que o brasileiro, em geral, é um povo sem horizonte. Tenho que explicar melhor. Não falo do horizonte físico, mas do interior. Sim, falta profundidade ao nosso horizonte interior.Por exemplo: - o carioca. É o homem de sua rua, do seu bairro, de sua cidade. Se me perguntassem até onde vai meu horizonte interior, eu diria: - até Bangu. Pensar que existe algo, além de Bangu, já me dá vertigem. Isso, eu. Os outros vão mais longe, porém não muito mais longe. O horizonte interior do brasileiro não chega ao Amazonas.Em várias "confissões", escrevi que a solidão do Amazonas é um crime de todos nós. Outro dia, o Paulo Bentes clamava, estrábico de horror: - "O Amazonas tem menos gente do que Madureira". Não sei se foi o Paulo Bentes que disse isso ou o Miguel Lins. Não, não. Foi mesmo o Paulo Bentes. Imaginem: - o Amazonas é um continente e perde em população para Madureira. E, no entanto, há pior e, repito, há pior.

Vamos aos fatos.

Ontem, fui apresentado a um rapaz magro, tímido, o rosto cravejado de espinhas. Que ele fosse magro, ou tímido, não teria importância. Mas pergunto: - "Por que as espinhas?". Sou homem de gerações passadas. E posso afirmar que, antigamente, todo mundo tinha espinhas. Hoje quem as tem? Só o Oduvaldo Viana Filho. A pele do brasileiro atual é admirável. E eu me espantei das espinhas que floriam do rosto do tal rapaz. Súbito, alguém sussurra: - "É do Piauí".

O fato de ser do Piauí soou como uma explicação geográfica da timidez, das espinhas e das canelas (canelas de Olívia Palito). Olhei o apresentado com uma curiosidade nova e aguda. Enfim, eu encontrava, na vida real, um piauiense. Por um momento, deu-me uma vontade pueril e terrível de perguntar-lhe: - "Quer dizer que o Piauí existe mesmo?". Conversamos alguns minutos (eu estava magnetizado pelas espinhas). Até o fim, o rapaz teve um olhar súplice, infeliz, de quem pede desculpas de não sei que faltas imaginárias. Por fim, despediu-se. Sua humildade era irrespirável.

Mal o piauiense virou as costas, imaginei: - se o Amazonas tem menos gente do que Madureira, que dizer do Piauí? O Piauí deve ter menos habitantes do que a praça Saenz Peña. Diz a minha vizinha, gorda e patusca - "A gente vive aprendendo". Aprendi, numa simples apresentação, que o Piauí é infinitamente mais abandonado do que o Amazonas. Este, na pior das hipóteses, é para nós um sentimento de culpa. Sei que o Amazonas continua, no seu lugar, como um monstruoso túmulo florestal ou fluvial, sei lá. Mas temos vergonha, remorso, de tal abandono. O próprio estado ainda esbraveja, ainda esperneia, ainda reivindica, ainda pede verbas. Também se fala do Ceará, do Rio Grande do Norte, Sergipe, Maranhão e Pará. A minha terra, Pernambuco, está viva. Tem Gilberto Freyre.

Mas, e o Piauí? Nem uma palavra sobre o Piauí. Silêncio ensurdecedor. Eu próprio passo dez anos, quinze anos, sem pensar no Piauí, e sem ouvir-lhe o nome. Alguém poderia dizer como se falasse da Lua: - "Piauí não tem vida". Graças às radiofotos fazemos uma idéia de pai sagem lunar. Parece que lá em cima não há uma única e escassa lagartixa. Mas que noção temos nós da paisagem do Piauí? Quero crer que estejamos rigorosamente convencidos de sua inexistência. O silêncio que se faz sobre o Piauí é inédito. A única referência que temos, do seu povo e de sua terra, é o "meu boi morreu". E o próprio estado, com um fatalismo bovino, não pede verbas, não pede nada, não exala um protesto.

E o que mata é, justamente, a humildade. Dirão vocês que o Piauí tem a modéstia do pequeno, sim, a modéstia do pobre. Já contei, aqui, o que ocorreu no Vaticano. Uma senhora brasileira foi recebida pelo papa. Poucas palavras. Ao se despedir, Sua Santidade pediu, num sussurro: - "Reze por mim". Podia ter essa humildade porque era o papa.

Agora mesmo, há o caso patético do Cinema Novo. O Rio é, como se sabe, a sede do Festival Internacional do Cinema. Concentram-se aqui diretores, autores, astros de toda parte. Trata-se de uma festa mundial. Que faz o Cinema Novo? Resolveu tratar o festival "com o mais ultrajante desprezo, o mais feroz sarcasmo". E, portanto, age e reage como se ele, Cinema Novo, é que fosse a potência esmagadora, e seus artistas os gênios, as celebridades, a promoção mundial. Os idiotas da objetividade, que sempre os há, e sarcásticos, poderão ver, em tal arrogância, um sintoma de paranóia. Não sou psiquiatra. E acho que devemos deixar a modéstia, a humildade, para os Estados Unidos, a França, Itália, Japão. Nós precisamos de mania de grandeza, e repito: - a mania de grandeza é o nosso único luxo de subdesenvolvido. E, seguindo o estilo do Cinema Novo, o Piauí deve fazer pose de potência mundial.


NELSON RODRIGUES
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