Aos 22 anos, eu já tinha dois filhos e vivia um casamento
frustrante. André*, 11 anos mais velho, empresário
superdedicado ao trabalho, desconfiava de que algo ia mal, mas
fazia que não era com ele. Eu ficava em casa, cuidando
das crianças. Cuidando, em termos, porque tinha babá
e três empregados. Quando me queixava para a minha mãe,
ela dizia: 'André é o melhor homem do mundo'.
Pensando friamente, não tinha mesmo do que reclamar.
Morava em uma boa casa na Pampulha, em Belo Horizonte, e tinha
tudo do bom e do melhor. Mas faltava aventura e paixão
na minha vida.
Beth*, amiga de anos, também achava loucura questionar
meu casamento. Mas o que eu sentia por André era uma
espécie de ternura e repugnância --na cama, essa
mistura é uma bomba. Nós nos casamos em 1996,
eu tinha 19 anos e estava apaixonada. Mas, três anos depois,
queria mais da vida. Influenciada por Beth, que tinha em mente
me distrair, comecei a freqüentar salas de bate-papo na
internet. Conheci muita gente, mas só estabeleci vínculo
com Lucas*, que se apresentava como médico-residente,
28 anos, recém-separado e pai de um menino de 4 anos
-quase a mesma idade da minha filha mais velha.
Nossas conversas começaram com mensagens nada reveladoras.
Em uma semana de contato, ele mandou um recado que me abalou:
'Como você está? Estou com saudade'. Parece bobagem,
mas o fato de um homem estar interessado em mim mexeu comigo.
Sem pensar, respondi que também estava com saudade e
a conversa, que tinha começado às 22h, se estendeu
até as 2. André viajava a negócios e as
crianças já tinham dormido. Ingenuamente, fui
abrindo minha vida. Quando falei sobre como me sentia no casamento,
Lucas me aconselhou: 'Acabei de me separar e é barra.
Os filhos sofrem, todo mundo sai ferido'. A partir daí,
passamos a nos falar diariamente. Com ou sem André, chamava
Lucas sempre às 22 horas.
Quando estava em casa, meu marido estranhava o fato de eu não
sair da internet. Dava desculpas, dizia que eram os trabalhos
da faculdade -nessa época, estudava Direito. Dois meses
depois, Lucas e eu trocamos fotos. Além de já
estar envolvida com as palavras dele, o cara era lindo -alto,
magro, claro. Pensei: 'Tirei a sorte grande'.
Sabia que era uma loucura manter um romance virtual, mas tanta
gente encontra o amor da vida na rede que, sem me dar conta, comecei
a fantasiar uma história com Lucas. Com o tempo, os contatos
se tornaram um vício e eu ficava sonhando com o dia do
nosso encontro real. Pensava na roupa, na maquiagem, no penteado.
Nessa hora, correria para abraçá-lo e beijá-lo
ou faria um tipo mais recatado? Eu me sentia uma menina de 14
anos, mas tentava me manter discreta diante de minha família.
Como André não é bobo, percebeu que eu estava
distante e passou a me pressionar. Ele queria transar e, sempre
que dava, negava fogo com desculpas clássicas: dor de cabeça,
sono, preocupações...
André, que é um cara calmo, foi se irritando
a ponto de se tornar agressivo. Falava comigo como se eu fosse
qualquer pessoa. A situação foi ficando tão
insustentável que, um dia, furioso, ele arrancou o computador
da mesa, quebrou o monitor e ameaçou me bater. Era a
primeira vez que ele tinha uma reação dessas.
Fiquei assustada, mas consegui pedir a separação.
Falei que estava desiludida com o casamento e André,
além de concordar, aceitou sair de casa. Apesar do clima,
rompemos de forma amigável. Fiquei com as crianças
e ele foi embora, mas aparecia todos os dias para ver os filhos
-uma menina de 4 anos e um menino de 2. Isso não posso
negar, André é ótimo pai.
Já fazia seis meses que eu falava com Lucas. Ele tinha
o número do meu telefone, mas se recusava a me ligar
-e eu não tinha o contato dele. Tudo o que eu sabia era
que ele se chamava Lucas Ribeiro e que trabalhava em um hospital
de São Paulo.
Comentei isso com Beth, e ela estranhou: 'Nunca ouviu a voz
dele? Ou é casado ou é gay'. Fiquei com a pulga
atrás da orelha e o pressionei a me dar seu telefone.
Ele disse que preferia deixar as coisas como estavam. 'Você
precisa deixar que a situação se acalme. Gosto
de você e estarei sempre a seu lado.'
O que eu mais queria era estar com ele, mas, apesar disso,
acabei me conformando com a idéia de continuarmos só
no virtual. De fato, precisava de um tempo. Nossos papos eram
sempre longos e carinhosos. Fizemos sexo pelo computador algumas
vezes. Ele, todo romântico, dizia: 'Você é
uma princesa, quero beijar o seu corpo'. Eu me derretia e o
imitava: 'Também quero conhecer seu corpo'.
Estávamos há um ano no virtual, quando decidi
rastrear a vida dele. Telefonei para o hospital onde ele trabalhava
e, atônita, recebi a informação de que não
havia nenhum dr. Lucas Ribeiro. Fiquei furiosa, me sentindo
ludibriada. Mas, quando o coloquei contra a parede, Lucas deu
a desculpa de que os residentes não constavam da lista
do hospital. Acreditei.
Era fim de ano e, com a desculpa de mandar um presente, consegui
o seu endereço: um apartamento na Vila Madalena, em São
Paulo. Comprei uma camisa e despachei pelo correio. Com o endereço
na mão, descobri o número e liguei. Caiu na portaria,
e o zelador me disse que não havia nenhum Lucas no prédio.
No apartamento, vivia um senhor, pai de três filhos que
moravam em outra cidade.
Achei que ia enlouquecer. Não sabia o que pensar, porque
eu acreditava em Lucas. Ele parecia tão sincero nos sentimentos...
Ao mesmo tempo, todo o mistério me levou a achar que
ele era casado ou tinha um problema terrível a esconder.
À noite, entrei na rede e desabafei minha revolta. Escrevi
que ele era mentiroso e que não queria mais nada com
ele. Lucas, todo carinhoso, falou que eu tinha razão
e que, na verdade, no endereço morava um amigo, Fabiano.
O caso estava estranho demais e agora era uma questão
de honra encontrar Lucas. Telefonei de novo para o porteiro
e descobri que o tal Fabiano realmente existia. Era um dos filhos
do dono do apartamento. Inventei uma história e consegui
o telefone do pai do Fabiano. Liguei, disse que era amiga do
rapaz, e o velhinho, todo simpático, deu as informações
que eu buscava: Fabiano morava em Ribeirão Preto com
a mãe e dois irmãos.
Não esperei dois minutos para ligar e, para minha surpresa,
Fabiano atendeu. Me apresentei como amiga do Lucas. 'Que Lucas?'
Contei que trocava e-mails com ele e que tinha perdido o telefone,
por isso pedia ajuda. Fabiano insistia que não o conhecia.
De tanto eu pressionar, perguntou qual era o e-mail do Lucas.
Disse e, rindo, ele respondeu: 'Esse e-mail é da minha
irmã'.
Gelei, mas quis falar com ela. Sandra* veio com uma conversa
esquisita. Falou que tinha tido um romance virtual com Lucas
anos atrás e que ele havia ficado com o e-mail dela.
Foi gentil, me deu seus contatos e disse para eu procurá-la,
caso precisasse. Assim que desliguei, Sandra entrou na rede
deixou a mensagem: 'Se eu fosse você, nunca mais falaria
com Lucas. Ele é perigoso. Não posso falar agora'.
E sumiu.
Estava a ponto de enlouquecer e, com toda a confusão,
não sabia como agir. Fiquei desesperada com a idéia
de Lucas ser um bandido e tudo o que me passava pela cabeça
era que eu tinha que ir até o fim da história.
Falei com ele pela internet, contei sobre o que Sandra havia
me dito. Lucas confirmou o romance, disse que o e-mail ainda
era dela e riu quando eu disse que ele podia ser bandido. Me
mandou até seu diploma de médico. Mas eu estava
desconfiada demais e esfriei. Ele insistia nas mensagens. Para
mim, ele não era mesmo bandido, só que ainda estava
casado. Resolvi sumir por uns dias. Na verdade, fiz isso com
a intenção de provocá-lo. Quem sabe acabaria
me ligando. Mas na-da. Lucas continuou enviando e-mails e não
resisti.
Nesse meio tempo, Sandra telefonou para me contar que tinha
encontrado Lucas em um bar. Falou que ele era o mesmo 'cachorro
de sempre' e que se vangloriava de dar golpes pela internet.
Disse de no-vo para eu tomar cuidado com ele. Mais: ela falou
que tinha gostado de mim e queria ajudar a desmascarar Lucas.
Achei estranho ela se meter, mas, ao mesmo tempo, Sandra podia
ser a chave para chegar nele.
Por semanas, Sandra e eu trocamos e-mails todos os dias. E,
em algum instante, percebi que ela e Lucas nunca estavam juntos
online. Isso me chamou a atenção. Comecei a reparar
no jeito como ela escrevia, a construção das frases,
as palavras... E fui constatando, entre confusa e chocada, que
as mensagens dela e de Lucas eram parecidas. O tom era o mesmo,
carinhoso e sensível. Também notei que Sandra
sabia coisas sobre Belo Horizonte que eu tinha contado para
Lucas. Ou os dois se falavam ou havia algo bem esquisito.
Diferente do que acontecia com Lucas, sempre conversava com
Sandra pelo telefone. Em uma dessas ligações,
disse que estava indo a uma festa, e a menina ficou atarantada.
Meio bêbada, me chamou pelo celular a noite toda, queria
saber o que estava acontecendo na festa.
Desliguei o telefone, e ela deixou vários recados. No
dia seguinte, perguntei a ela: 'Diga com sinceridade. Há
quanto tempo você fala comigo?'. E Sandra: 'Há
dois anos'. Naquela hora, entendi tudo, já não
havia dúvidas: Lucas e Sandra eram a mesma pessoa. Fiquei
em estado de choque. Telefonei para Beth, chorei, me achei a
mulher mais imbecil do mundo, mas ainda sentia carinho por Lucas.
Na verdade, estava apaixonada. Eu me apaixonei por um sonho,
uma fantasia... Quando descobri a identidade de Lucas, já
estava entregue.
Fiquei entre a cruz e a caldeirinha. O que eu ia fazer? Beth
me aconselhou a encontrar Sandra e acabar com aquela ilusão.
'Ela deve ser uma sapatona e você vai desencanar.' Achei
a idéia boa e marquei um encontro. Deixei meus filhos
com minha mãe e fui para Ribeirão Preto, onde
ela mora. Sandra me esperava no aeroporto. De longe, saquei
quem era ela. Vestia calça azul e camisa branca. O cabelo
era curto. Não tinha o estereótipo da sapatona,
mas revelava um jeito masculino. Não a achei feia nem
bonita.
Nós nos cumprimentamos com um 'oi, tudo bem' e só.
Ela estava nervosa e, do aeroporto até a casa dela, onde
eu ficaria, fala-mos pouco. A ca-sa dela era uma mansão.
Sandra me mostrou o quarto e me deixou à vontade. À
noite, saímos para um bar com uns amigos dela e, quando
voltamos, Sandra começou a falar que estava arrependida
do que tinha feito. Não sei o que aconteceu, lembro que
nem ouvi o que ela dizia, mas senti um impulso irresistível
e a beijei. Sandra correspondeu e foi uma noite inesquecível.
Eu nunca tinha tido uma relação homossexual,
nem nas mais ousadas fantasias. Mas a experiência foi
boa. Passei um fim de semana mágico, realmente estava
apaixonada.
Durante outros seis meses, namoramos. Ela ia para minha casa
dez vez em quando, e eu para a dela. Em nossas casas, falávamos
que éramos amigas. André desconfiou, me pediu
a verdade e levou parte dela. Contei que estávamos namorando,
mas não dei os detalhes. Ele ficou inconformado. É
difícil ser trocado por outra mulher. Mas não
brigou, só implorou para não contar às
crianças.
Minha mãe começou a cismar com as visitas de
Sandra e com minhas idas a Ribeirão. Um dia, em casa
com Sandra, ela perguntou se estávamos tendo um caso.
Confirmei, e ela se descontrolou. Ofendeu Sandra, xingou, disse
que eu tinha arrumado uma mulher porque não conseguia
segurar homem. Foi um escândalo.
Para piorar, minha mãe, que tinha o telefone da casa
de Sandra, resolveu contar para a mãe dela o que estava
acontecendo. A mulher ficou chocada, e Sandra, ao invés
de contar a verdade, negou nossa relação. Eu queria
que ela confirmasse, mas, para o meu espanto, abafou o caso.
Eu mesma falei com a mãe dela, contei exatamente tudo
o que tinha acontecido. Mas ela preferiu acreditar na filha,
que afirmava sermos amigas, nada mais. Isso me machucou muito.
Eu tinha virado minha vida do avesso por causa de Sandra, e
ela era incapaz de assumir seus próprios sentimentos.
Sandra dizia não ter coragem de encarar a verdade diante
da família, não podia se assumir e muito menos
me assumir. Ela, que tem a mesma idade que eu, queria continuar
se escondendo. Mas isso era inaceitável. Até viveria
uma história de amor com ela, desde que me assumisse.
Depois dos riscos que eu havia corrido, não pretendia
viver na sombra. A minha desilusão foi do mesmo tamanho
da paixão que ela me despertou.
André tinha arrumado uma namorada e, depois dessa aventura,
que durou três anos, achei que ele jamais olharia na minha
cara. Mas, em abril de 2005, minha mãe teve um infarto
e ele me ajudou nesse processo. Ficou bem perto de mim e estava
diferente, mais atencioso. Fiquei na minha por causa da outra
mulher. Um dia, ele me convidou para um jantar e topei. Falamos
bobagem, ele me contou sobre a namorada e revelou que não
era apaixonado por ela. Acabamos a noite em um motel e foi uma
delícia reviver os primeiros tempos de casada. Me senti
mulher de novo sendo amada por um homem. Encontros assim aconteceram
por quase um ano. Eu me tornei a amante do ex.
Numa dessas saídas, André me contou que tinha
brigado com a namorada. Por um instante, imaginei minha vida
ao seu lado, mas a ficha caiu. Dormir junto era bom demais,
estávamos nos dando muito bem na cama, mas ele jamais
esqueceria o meu romance com Sandra.... Só que me enganei.
Foi André quem propôs recomeçarmos a vida
juntos. Ele jurou que nunca me jogaria na cara o caso com Sandra
e me fez jurar que esqueceria o tempo em que ele viajava a negócios
e vivia mais fora do que dentro de casa.
Aceitei sem acreditar no que estava vivendo. Mudamos de casa,
compramos coisas novas e parecia que estávamos em lua-de-mel.
Seis meses depois, engravidei e, no primeiro ultra-som, descobri
que carregava gêmeos. Os bebês nasceram no final
do ano passado.
Minha mãe se recuperou, está feliz com os bebês
e com a minha reconciliação com André.
Hoje em dia, converso às vezes com Sandra pela internet.
Ela quer saber como estão as coisas. Mas não sinto
mais nada. André sabe que a gente se fala, mas não
liga. Tem confiança em mim, embora a minha senha do computador
seja a mesma que a dele. Nem sei dizer se sou bissexual ou não.
Mas não tenho preconceito. Só sei que tenho tido
grandes prazeres, inclusive sexuais, com André. Aprendi
com tudo isso que o amor é muito mais do que eu imaginava.'
fonte: Revista
Marie Claire